Vírus Zika e Microcefalia

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Notícias de ontem informam que cientistas americanos confirmaram que o vírus Zika causa microcefalia.

Entitulado “Zika Virus and Birth Defects — Reviewing the Evidence for Causality” (“Vírus Zika e Defeitos de Nascimento – Revisando a Evidência de Causalidade” numa tradução livre), o artigo utiliza um esquema de critérios conhecido como Critérios de Shepard. Thomas Shepard foi um pesquisador que publicou em 1994 uma série de critérios para identificar elementos teratogênicos (que causam problemas no feto) em seres humanos:

  1. Exposição ao agente em algum momento crítico da gravidez
  2. Achados consistentes em pelo menos 2 estudos epidemiológicos que obedeçam a certos parâmetros (controle de outros fatores, quantidade suficiente de dados, etc)
  3. Detalhamento claro dos casos clínicos
  4. Ocorrência de um defeito raro em uma situação rara
  5. Efeito teratogênico em animais experimentais
  6. Plausibilidade biológica da associação do agente ao efeito
  7. Experimentos em ambiente controlado

Vamos analisar esses critérios um de cada vez:

Item 1:

Deve existir uma correlação entre a época da infecção pelo vírus e alguma época crítica da gravidez. Isto é, deve ser possível estabelecer uma ligação entre a exposição ao vírus e a ocorrência do problema. No caso da microcefalia, ela ocorreu em gestações que foram expostas ao vírus entre o final do primeiro e o início do segundo trimestres.

Item 2:

O segundo critério requer que um certo número de estudos demonstre que essa associação é válida. Isto é, estudos publicados e comprovados, que não necessariamente estabeleçam como ocorre a ligação entre uma coisa e outra, mas que levem em conta os vários fatores que podem influenciar nos resultados, como por exemplo utilizar uma quantidade suficiente de casos, exclusão de qualquer viés (de negação ou de confirmação) que possa influenciar as conclusões, outras possíveis causas dos defeitos, e assim por diante. No caso do Zika com a microcefalia, o artigo cita dois trabalhos, um no Brasil e outro na Polinésia Francesa (os dois lugares onde surtos do Zika foram confirmados). No caso do estudo brasileiro, 29% das mulheres que pegaram o Zika em qualquer momento da gravidez desenvolveram alguma anomalia do feto, mas nem todas foram confirmadas.

Ainda segundo o artigo, ainda não há outros estudos a respeito. Devido às baixas porcentagens de casos confirmados, não é possível dizer que esse critério é cumprido; talvez depois que mais estudos do tipo forem feitos isso mude.

Item 3:

É necessário estabelecer com clareza quais são os efeitos que decorrem do agente em questão (o Zika, neste caso). Isto é, os casos do vírus têm que apresentar sintomas parecidos; se casos diferentes apresentam sintomas diferentes (por exemplo, uma criança apresenta microcefalia sem calcificações no crânio, enquanto outra apresenta as calcificações mas não a microcefalia, então isso não serve como base para confirmação). Os estudos citados no artigo, entretanto, estabeleceram essa relação, encontrando na maioria dos casos, além da microcefalia, calcificações intracranianas e outras anomalias cerebrais, ao ponto de criar o termo “síndrome Zika congênita”.

Item 4:

Como diz o ditado, “um raio não cai duas vezes no mesmo lugar”. Embora esse ditado não seja verdade (mais sobre isso num outro dia), quando um defeito raro (por exemplo a microcefalia) acontece associado a uma circunstância rara (por exemplo, a pessoa toma certa medicação que é pouco utilizada), existe uma grande probabilidade de que as duas coisas estejam ligadas, já que ambas são difíceis de encontrar. No caso do Zika, a exposição ao vírus não tem sido nada rara no Brasil. Mas, considerando apenas as mulheres grávidas e que passaram pelas áreas em que há o surto (uma situação bastante incomum) e que desenvolveram fetos com microcefalia (6 casos a cada 10000 crianças nos EUA), o critério está atendido.

Itens 5, 6 e 7:

Esses itens são importantes, porém não são essenciais. O item 5 requer que a teratogenicidade seja demonstrada em animais experimentais; mas não existem estudos a respeito (Luísa Mel pode ficar tranquila desta vez). O item 6 requer que a associação “faça sentido”: isto é, deve haver algum raciocínio em termos biológicos que consiga explicar a relação entre a causa e o efeito. Neste caso, não há evidência direta nem estudos únicos, mas já foi demonstrado que o Zika “destrói” os neurônios que infecta. Além disso, o vírus foi encontrado no tecido cerebral de fetos de mães que apresentaram infecções pelo vírus, e também foi mostrado que ele atravessa a barreira placentária (a camada de proteção que, na maioria dos casos, “isola” a mãe e o bebê, e é responsável por impedir a passagem de agentes nocivos). O item 7 se refere exclusivamente a medicamentos ou outras substâncias, o que não é o caso.

Resumindo, dos sete critérios estabelecidos, cinco são satisfeitos e um deles (o segundo) é “mais ou menos” satisfeito. Os autores desse estudo chegam à conclusão de que, portanto, existe ligação uma ligação causal entre infecções pré-natal pelo vírus Zika e a microcefalia e outras anomalias cerebrais graves.

Aqui é importante ressaltar que, na ciência, a linguagem que utilizados é extremamente importante, e não pode haver dúvidas com relação ao que está escrito. Por isso, é necessário ler com muito cuidado esse tipo de frase. Apesar do que dizem os jornalistas, ninguém está dizendo “vírus Zika causa microcefalia”. Dizer isso está errado por uma série de motivos. Primeiro, e mais óbvio, é necessário estar grávida para que esse risco exista. Segundo, a relação entre o Zika e a microcefalia está estabelecida apenas se a infecção ocorre em uma época específica da gravidez (3º ou 4º mês). Infecções em outras épocas podem levar a outros problemas ou não. Especificamente, o artigo diz que uma relação causal está estabelecida entre o Zika e a microcefalia, isto é, o vírus causa microcefalia e outros defeitos, mas ainda é importante saber como isso ocorre.

Cientificamente falando, a parte mais importante desse trabalho não são as conclusões diretas (emboram elas sejam importantes, não vamos confundir as coisas aqui); o mais importante no trabalho científico é responder perguntas, criando novas perguntas. É assim que o conhecimento evolui. Neste caso específico, o artigo estabelece três perguntas que devem ser respondidas. Primeiro, quais são os defeitos que podem surgir a partir da infecção pelo Zika, e quais são as circunstâncias em que ocorrem. Segundo, é necessário quantificar os riscos entre as crianças nascidas de mulheres infectadas em diferentes épocas da gravidez. Terceiro, identificar fatores que modifiquem o risco de problemas durante a gravidez ou no nascimento. Quando essas três perguntas forem respondidas, o conhecimento sobre o Zika e a microcefalia estará mais bem estabelecido, e aí sim vai ser possível estabelecer quais são as medidas ideais para minimizar os problemas causados pelo vírus no que se refere à gestação.

Em versão resumida: sim, o Zika causa microcefalia, mas não é bem assim.

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