A fosfoetanolamina e o processo científico

A fosfoetanolamina vem recebendo uma enorme atenção ultimamente no Brasil. Trata-se de um composto que ocorre naturalmente no organismo. Sua versão sintética vem sendo proclamada por alguns como a “cura para o câncer”. Antes de falarmos sobre isso, falemos um pouco sobre o que é o câncer.

O que é câncer?

O câncer é, segundo a definição do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos, “o nome dado a uma coleção de doenças relacionadas”. A característica comum entre elas é que algumas células do corpo começam a se dividir descontroladamente, eventualmente invadindo outros tecidos e causando diversos problemas.

Normalmente as células do corpo têm um determinado ciclo de vida; assim como qualquer ser vivo, elas “nascem, crescem e morrem”. Essa expressão está entre aspas porque uma célula se reproduz através da mitose, processo em que ela se divide em duas células iguais. Eventualmente uma célula “envelhece”, isto é, perde a capacidade de executar sua função, ou é danificada por algum motivo, ela morre para que outra célula tome seu lugar.

No câncer, essa célula não morre. Em vez disso, ela continua a se reproduzir, gerando novas células que não têm capacidade de realizar nada de útil. Em qualquer lugar do corpo as células têm um certo nível de especialização, isto é, elas existem para executar uma tarefa específica. Células cancerosas apenas se reproduzem, consomem nutrientes e não executam nenhuma função. Como, ao se reproduzir, elas criam cópias iguais a elas, essas novas células fazem a mesma coisa: consomem nutrientes e se reproduzem.

Dessa forma, um tumor é um conjunto de células que apenas consome os nutrientes do corpo sem realizar nenhuma função útil. Pior ainda, essa multiplicação celular acontece descontroladamente, então o tumor cresce. Ao crescer, ele começa a interferir no funcionamento das células normais do corpo, pressionando gânglios, fechando vias sanguíneas, estimulando nervos que não deveriam ser estimulados, e assim por diante. Dessa forma pode surgir praticamente qualquer sintoma, de forma que o câncer é uma doença que não tem sintomas definidos, o que torna seu diagnóstico ainda mais difícil.

Uma situação particularmente problemática ocorre quando há metástase. Isso significa que o câncer “se espalha” para outros lugares do corpo, pois uma ou mais células se desprendem do tumor e podem cair na corrente sanguínea, e passam a se reproduzir em outras partes do corpo, dando origem a novos tumores.

Câncer tem cura?

Não. O câncer não é uma doença como outra qualquer, pois não segue qualquer regra de classificação. Suas causas não são claras, ele se divide em uma infinidade de categorias e, mais importante, uma vez que o paciente descobre que tem câncer, sua melhor esperança é que ele entre em remissão. Todo tratamento para o câncer consiste em encontrar alguma maneira de matar as células defeituosas com o menor dano possível às células saudáveis.

Todos os tratamentos conhecidos, no entanto, apenas servem para diminuir ou eliminar os tumores que surgem no organismo. Nenhum deles consegue remediar, de fato, os fatores causadores do câncer. Na verdade, não é possível ter controle total sobre as células cancerosas no organismo. É virtualmente impossível determinar se absolutamente todas as células defeituosas foram eliminadas. Ou seja, não existe cura definitiva para o câncer. Uma vez que ele entre em remissão, o paciente passará o resto da vida em alerta, com acompanhamento médico, para ter certeza de que não estão surgindo novos tumores.

A fosfoetanolamina

A fosfoetanolamina é uma substância produzida pelo organismo, e participa da composição da membrana celular. Ela foi isolada pela primeira vez em 1936 por um pesquisador chamado Edgar Laurence Outhouse, e foi sintetizada pela primeira vez em 1970 por Emile Cherbuliez.

No Brasil ela foi sintetizada por uma equipe liderada por um professor da Universidade de São Paulo. Por algum motivo, ela começou a ser fornecida a alguns pacientes como forma de melhorar a qualidade de vida em casos terminais de câncer, e apresentou resultados promissores. A partir daí a procura começou a crescer e se tornou o fenômeno que ocorre atualmente.

Ao ignorar os passos do processo científico de validação de uma substância como medicamento, os pesquisadores, em sua boa intenção, cometeram um erro gravíssimo. Mesmo tendo iniciado seu trabalho com a fosfoetanolamina no final dos anos 80, até hoje eles não executaram todos os testes necessários.

Em todos os lugares do mundo existem protocolos muito cuidadosos para que uma substância possa ser caracterizada como medicamento. E não é por menos.

Ao contrário do que podem pensar algumas pessoas, não é para que a indústria farmacêutica possa manter seus lucros; mesmo porque, como explicado acima, não seria este o caso, já que câncer não tem cura.

O organismo humano é um sistema indescritivelmente complexo. Sob algumas definições, pode-se mesmo dizer que se trata de um sistema caótico, porque uma mudança mínima nas condições iniciais pode gerar resultados finais completamente diferentes. Ou seja, por menor que sejam as variações em qualquer variável relacionada o resultado pode ser totalmente inesperado. Quando se trata de seres humanos, é bom lembrar que cada um tem suas próprias características. A carga genética de cada pessoa é diferente e isso gera sistemas completamente diferentes que reagem de forma distinta a estímulos externos (como, por exemplo, uma dose extra de fosfoetanolamina). É por isso que medicamentos contra dor de cabeça por exemplo funcionam melhor para algumas pessoas que para outras, ou por que certas pessoas apresentam “alergia” a certos alimentos, e assim por diante. E é por isso que é necessário que várias fases de testes sejam executadas para que o mecanismo de ação e os possíveis efeitos colaterais de uma dada substâncias sejam conhecidos com o maior nível de detalhes possível.

Esses testes devem ser progressivos, isto é, com nível de detalhe crescente, porque cada fase dos testes elucida uma parte do funcionamento dessa substância. Se o organismo humano fosse o mesmo para todas as pessoas toda a ciência do diagnóstico seria desnecessária. Entretanto somente um médico, com todas as técnicas e exames disponíveis, é capaz de chegar a um diagnóstico a partir dos sinais que o paciente apresenta. Ou seja, só porque funciona para uma pessoa, não significa que vá funcionar para outras.

O grande problema da fosfoetanolamina é que ela não passou por esses testes. Ela ainda é alvo de pesquisas pelo grupo que a sintetiza em São Carlos, e os trabalhos publicados sobre ela dizem respeito a um tipo específico de leucemia. Para que pudesse ser registrada como medicamento, a fosfoetanolamina precisaria ser sintetizada e testada em um processo envolvendo a Indústria Farmacêutica, Universidades, Centros de Pesquisa, Laboratórios de Análises Clínicas, médicos e voluntários, entre outros. Não é simplesmente uma questão de haver evidências em artigos científicos. Esses trabalhos são a fonte de tudo, mas são fundamentalmente, acadêmicos em sua natureza, e são realizados em ambiente controlado, com um número limitado de amostras. Testes clínicos, do início ao fim, são realizados em grandes quantidades de indivíduos, para que os diversos efeitos possam ser quantificados (1 em 10, 1 em 100, 1 em 1000, etc). Sem esse tipo de comprovação não há como garantir a segurança ou até mesmo a eficácia de qualquer medicamento.

Nunca é demais salientar que não existe solução milagrosa. A fosfoetanolamina é uma substância promissora, mas advogar que ela seja “a cura do câncer”, ou mesmo que vá ser eficaz na maioria dos casos, sem qualquer evidência baseada em testes clínicos é pura irresponsabilidade. Forçar a liberação de uma droga sem os devidos testes, então, é desprezar completamente os princípios científicos que servem como validação para a eficácia de qualquer medicamento, ignorando os riscos que isso pode trazer à população.

É compreensível querer vencer a batalha

Muitas pessoas vêem a fosfoetanolamina como uma panacéia, que resolverá todos os problemas que o câncer trouxe e o eliminará de suas vidas. Isso não existe. Infelizmente, nenhum medicamento tem esse poder. A fosfoetanolamina, especificamente, tem mostrado funcionar bem como marcador para as células cancerígenas, isto é, ela identifica as células defeituosas, mas seu efeito para diminuir os tumores não foi detectado pelos estudos do Ministério da Saúde.

É importante ter em mente que existem tratamentos cientificamente comprovados contra o câncer. Muitos deles oferecem boas chances de sobrevida. Outros, nem tanto, mas as pesquisas prosseguem. A ciência não é uma entidade rígida e imutável; muito pelo contrário, por sua própria natureza ela sempre evolui, e através dessa evolução a qualidade de vida do ser humano é melhorada. Os tratamentos que temos hoje em dia contra o câncer são incomparavelmente melhores que dez ou vinte anos atrás. Eventualmente outros surgirão que serão ainda mais eficazes e trarão menos efeitos colaterais.

A ciência, na imensa maioria das vezes, avança não através de saltos, mas incrementalmente, através do trabalho árduo e diligente de cientistas e pesquisadores. Do ponto de vista do avanço do conhecimento, não podemos deixar que a ansiedade nos leve a pular etapas: isso pode causar danos que, posteriormente, serão muito mais nocivos que qualquer coisa que possa decorrer da cautela em adotar medidas não comprovadas. É compreensível querer vencer a batalha, mas é inaceitável perder a guerra.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *