Ciência e Religião e o Ministério

Entre as notícias mais relevantes do noticiário ultimamente uma se destacou do ponto de vista de política científica que merece um comentário mais cuidadoso.

O vice-presidente Michel Temer, nas preparações para assumir o cargo de presidente interino enquanto corre o processo de impeachment de Dilma Roussef, parece ter escolhido o Sr. Marcos Pereira. Ele é pastor licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus e afirma acreditar na hipótese do criacionismo.

Criacionismo vs evolução

A discussão entre ciência e religião é antiga, e não cabe nest post, mas vamos fazer um breve resumo:

Criacionismo

O criacionismo afirma, com base nos relatos bíblicos, que uma entidade mística teria criado o universo a partir do nada, e nele teria criado os seres vivos de acordo com seu próprio desenho. Não existem provas para essa afirmação: trata-se de uma “questão de fé”. Existem justificativas para as evidências mais claras de que essa hipótese está errada, mas como ela tem origens religiosas no fim das contas tudo acaba caindo no misticismo.

Evolução

A evolução é uma teoria científica que afirma que, a partir de um determinado ponto após o surgimento do planeta (tópico para uma outra ocasião, mas que basicamente ocorreu a partir de fenômenos naturais sem intervenção de ninguém), surgiu um mecanismo biomolecular que era capaz de criar cópias de um tipo específico de molécula, Essa molécula, hoje conhecida como ácido desoxirribonucléico, o DNA, existe em todos os organismos vivos do planeta e, em todos eles, é composta pelos mesmos elementos básicos: bases nitrogenadas, fundamentalmente compostas de carbono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio. A partir desse ponto, o processo de seleção natural foi o responsável por selecionar, entre as diversas versões de DNA, qual a mais adaptada ao ambiente naquele momento. A mais adaptada funciona de maneira mais eficiente, e consegue criar mais cópias de si mesma, enquanto que a menos adaptada passa por dificuldades, consegue criar menos cópias e, eventualmente, ela e suas cópias acabam se tornando cada vez menos comuns até que não existam mais cópias delas.

Esse processo tem sido o mesmo desde a origem da vida, e levou de moléculas simples a organismos mais complexos, multicelulares, cheios de diversas funções desempenhadas por componentes especializados. Esses organismos também apresentam outros comportamentos, quase todos originários de um impulso instintivo de sobrevivência.

O funcionamento do processo evolutivo não se baseia em relatos encontrados em algum livro, nem em uma “questão de fé”: baseia-se em fatos concretos, comprovados de maneira sistemática e inequívoca. Existem provas para a evolução – todos os aspectos dela.

Não é questão de opinião

Fatos científicos não são questão de opinião – eles existem quer queiramos ou não. Não é necessário convencimento, pois fatos físicos existem independentemente se se acreditar neles ou não. A Terra é redonda, e isso é um fato. Há pessoas que não acreditam nisso, mas isso não faz a Terra deixar de ser redonda; ela continuaria do mesmo jeito mesmo que ninguém acreditasse nisso (como na Idade Média, por exemplo).

Questões de fé envolvem um processo de convencimento, porque essa é a natureza da fé: acreditar em algo sem que hajam provas definitivas, como é o caso do criacionismo.

Religião e política científica

A indicação de um pastor para a cadeira do Ministério de Ciência e Tecnologia é algo que preocupa muito a comunidade científica brasileira, porque alguém que não adota uma postura científica estaria em uma posição na qual seria capaz de afetar pesquisas científicas que tenham conflito com suas convicções. E esse é o grande problema: o progresso científico vem da liberdade de pesquisa, da possibilidade de fazer qualquer pergunta. Existe um receio de que questões religiosas interfiram nas políticas de financiamento do ministério quando se tratar de temas polêmicos.

Isso indica um certo preconceito contra uma pessoa religiosa; só por ser religioso o sujeito não necessariamente vai interferir nos rumos da pesquisa, contanto que saiba a diferença entre suas crenças pessoais e a missão do MCT. Por outro lado, mais uma vez, estamos vendo uma indicação política para um cargo crucial no desenvolvimento do país. Cabe lembrar que o médico Raul Cutait, cotado para ocupar a pasta da Saúde, não deve ser nomeado porque membros do PP temem não conseguir indicar pessoas para ocupar os baixos escalões do ministério. Esses cargos necessitam de alguém que seja capaz de compreender as especificidades e necessidades de cada área, pois é através do exercício profissional que se tem consciência delas. Um cientista ou engenheiro conhece bem as necessidades da comunidade científica e tecnológica, como um profissional da área da saúde terá melhores condições de avaliar qual deve ser a política do ministério da saúde; um profissional do ensino deveria orientar as ações na área da educação. Uma indicação política tem pouquíssimas chances de contemplar esses requisitos, embora o ministro tenha a possibilidade de se valer do conselho dos profissionais envolvidos na área.

O que esperar

É difícil avaliar o que esperar, supondo que seja mesmo esse o caso. Pelo que tem falado em entrevistas, o potencial novo ministro pretende manter separadas a sua religião e sua atuação no ministério, o que é um bom sinal. Ele afirmou, em entrevista ao UOL Notícias, que pretende avaliar a situação financeira do ministério e consultar técnicos para tomar uma decisão.

A verdade é que a opção religiosa da pessoa indicada ao cargo não deveria ser um ponto de discussão; por outro lado, a sua atitude com relação à atuação imparcial do ministério, independentemente de religião, é um ponto importantíssimo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *