Investimento em ciência e progresso

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A importância da pesquisa científica

É um fato bastante comum o de que existe uma relação bastante próxima entre o nível de investimento de um país em pesquisa e desenvolvimento e o nível de sucesso que esse país apresenta.

Não é por acaso que os países mais bem-sucedidos do mundo são aqueles que possuem uma política consistente de investimento em ciência; mais que gastar muito, é necessário gastar bem o dinheiro disponível – e constantemente.

A pesquisa científica – especialmente a pesquisa básica – é aquela realizada pela própria busca do conhecimento. Não existe aplicação imediata ou definida para os resultados que podem ser obtidos. De fato, as conclusões obtidas em um trabalho de imediato servem para a formulação de novas perguntas a serem respondidas. Isso leva a um ciclo de perguntas que são respondidas por outras perguntas, e o saldo desse processo é um diferencial na compreensão do fenômeno em questão.

Como veremos mais adiante neste blog, não é simplesmente uma questão de experimentos que “dão certo” – mas sim das informações que podem ser obtidas através deles. O conhecimento gerado através do progresso científico é que leva a novas descobertas na área tecnológica. A pesquisa científica tem por objetivo elucidar fenômenos básicos, que então são utilizados em aplicações práticas.

Investimento

À primeira vista, uma área que absorve dinheiro e não produz resultados imediatos pode parecer uma escolha ruim para investir. Entretanto, a natureza do progresso científico não é a do progresso imediato; resultados obtidos no laboratório são apenas a base sobre a qual novas técnicas, produtos e protocolos são desenvolvidos. Ou seja, um mesmo fenômeno pode ser utilizado em diversos lugares distintos. Aplicações que, sem o devido entendimento dos processos envolvidos no seu funcionamento, seriam inviáveis ou mesmo impossíveis. A ciência é a maneira de tornar o impossível possível.

Por isso, o retorno do investimento em ciência e tecnologia se dá a médio e longo prazo, e de maneira pulverizada, porém muito mais intensa. O conhecimento científico tem o potencial de transformar a vida das pessoas de inúmeras maneiras diferentes, sendo aplicado em todas as áreas de atividade, desde a melhoria dos processos produtivos até dispositivos que sejam mais eficientes ou medicamentos que sejam mais eficazes. Por isso, a ciência é – e deveria ser considerada – uma área estratégica para qualquer país que tenha alguma pretensão de se desenvolver.

Questão de Estado

O Estado brasileiro trata muito mal a ciência feita aqui. Esta lista mostra o nível de investimento de cada país em pesquisa e desenvolvimento – e a posição do Brasil não é nada confortável. À primeira vista não parecemos estar tão mal assim, estando no 15º lugar. No entanto, se analisarmos com mais cuidado a lista, veremos que, proporcionalmente ao PIB, estamos em posição muito pior – figurando entre Nova Zelândia e Malásia. Para um país de dimensões continentais como o Brasil, com uma grande população, o que indica um alto potencial de recursos humanos que poderiam ser utilizados nessa área, um percentual de investimento de 1,15% do PIB é risível.

Uma pesquisa rápida nos dá os seguintes dados:

Posição País Gasto em P&D (US$ milhões) % do PIB Gasto per capita IDH Posição no IDH
1 Coréia do Sul 91.6 4.292% 1518.47 0.898 18
2 Israel 11.2 4.109% 1361.56 0.894 19
3 Japão 170.8 3.583% 1344.31 0.891 21
4 Finlândia 7 3.174% 1290.58 0.883 25
5 Suécia 14.2 3.161% 1460.98 0.907 14
6 Dinamarca 7.6 3.051% 1361.51 0.923 5
7 Taiwan 32.4 3.006% 1383.84 0.882 26
8 Áustria 10.9 3% 1416.14 0.885 24
9 Suíça 13.1 2.967% 1647.9 0.930 4
10 Alemanha 106.5 2.842% 1313.46 0.916 6
11 Estados Unidos 473.4 2.742% 1442.51 0.915 9
34 Brasil 35.4 1.15% 177.89 0.755 76

Compilei essa tabela relacionando o gasto de cada país com a sua posição no Índice de Desenvolvimento Humano, com dados extra sobre Taiwan, já que esse país não é membro da ONU, que faz o cálculo oficial do índice. Os dados de gastos com pesquisa são da OECD (Organização para a Cooperação Econômica e Desenvolvimento). O IDH, aliás, não tem em seu cálculo uma dependência direta com o nível de investimento em ciência, sendo calculado a partir de dados sobre a qualidade de vida da população, como expectativa de vida, número de anos dentro do sistema educacional e renda per capita.

Essa análise está longe de ser completa, mas pode dar uma idéia da correlação que existe entre o nível de investimento e a melhora da qualidade de vida da população em geral. Uma coisa nessa tabela é notável: os dez países que investem a maior parcela de seus respectivos PIBs estão entre os 25 com melhor IDH do mundo.

Enquanto isso, o Brasil, que está em 34ª posição no nível de investimento, está em 75º no IDH. Uma posição bem pior com relação ao investimento realizado aqui. Aliás, os dados sobre investimento são de 2012, antes da atual crise econômica, entre cujas primeiras vítimas figura o justamente o orçamento das instituições de fomento à pesquisa, o que significa que fatalmente esse número vai piorar bastante.

Calculando a razão entre o IDH e o nível de investimento (em % do PIB), temos uma surpresa:

País % do PIB IDH IDH/PIB
Coréia do Sul 4.292% 0.898 20.9
Israel 4.109% 0.894 21.8
Japão 3.583% 0.891 24.9
Finlândia 3.174% 0.883 27.8
Suécia 3.161% 0.907 28.7
Dinamarca 3.051% 0.923 30.3
Taiwan 3.006% 0.882 29.3
Áustria 3% 0.885 29.5
Suíça 2.967% 0.930 31.3
Alemanha 2.842% 0.916 32.2
Estados Unidos 2.742% 0.915 33.4
Brasil 1.15% 0.755 65.7

O investimento em P&D no Brasil aparenta ter potencial acima da média de melhorar o IDH, se considerarmos essa proporção, que é uma maneira bastante grosseira de representar a capacidade do investimento em ciência de gerar qualidade de vida. Naturalmente, existe um enorme número de fatores que não estão sendo considerados nessa estimativa, e além disso somente uma política científica consistente e duradoura é realmente capaz de levar a uma produção sustentável de conhecimento (e, por consequência, de propriedade intelectual) que levaria a uma melhoria no IDH.

No Brasil, o que realmente temos é um ministério que está sempre entre os primeiros a ser “negociado”, sendo usado como moeda de troca por apoio político. Nas atuais circunstâncias, fundido ao ministério das Comunicações, o que temos é um leviatã com mais funções que é capaz de coordenar. A indicação de Gilberto Kassab tem natureza política, muito embora o ex-prefeito de São Paulo tenha demonstrado no passado uma tendência favorável a temas importantes como geração de energia limpa e modernização de infraestrutura. Essa fusão dos dois ministérios é um equívoco, e pode prejudicar ainda mais a já combalida ciência brasileira. Não é à toa que sociedades científicas brasileiras como a SBPC e a ABC protestaram contra essa medida. Uma indicação mais técnica, de uma pessoa com real experiência no mundo acadêmico e da pesquisa, seria capaz de demonstrar maior sensibilidade às necessidades da comunidade acadêmica, o que geraria pesquisa de melhor qualidade e em maior quantidade.

Michel Temer fala de uma “ponte para o futuro”. Essa ponte não pode ser construída de cimento e tijolos; os materiais para ela são conhecimento, tecnologia e inovação. A menos que a pesquisa e o desenvolvimento sejam levados a sério, com investimentos intensivos e uma grande campanha de combate ao analfabetismo científico, estaremos fadados a permanecer deste lado de uma ponte inacabada.

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