O Funcionamento da Ciência: o que é uma Teoria?

Frequentemente se ouve no cotidiano alguém mencionando que determinado fato é “apenas uma teoria”. Às vezes esse uso é aceitável, mas às vezes não é. Especificamente, quando se trata de conhecimento científico, o que se conhece popularmente como teoria não se aplica, pois, cientificamente, a palavra teoria tem um significado bastante preciso.

Especulação

No original grego, a palavra “teoria” representa um “conhecimento descritivo puramente racional”, tendo o significado de contemplação, observação ou especulação.

Esse último significado representa o que normalmente se denota por teoria no cotidiano. Por exemplo, ao tentar explicar porque uma pessoa tomou uma determinada atitude, alguém que a conhece pode dizer: “eu tenho uma teoria que…” e então proceder a especular a respeito das motivações da tal pessoa. Nesse caso, trata-se de “apenas uma teoria”, isto é, algo que pode ou não ser verdade, e que é baseado unicamente nas opiniões de uma pessoa, e não em fatos reais.

Hipótese

Cientificamente, uma ideia de natureza especulativa é chamada de hipótese. Essa palavra vem do grego e representa uma informação que pode ou não ser verdadeira, dependendo de uma verificação. Em outras palavras, trata-se de uma suposição. Ainda falaremos mais sobre hipóteses quando entrarmos no Método Científico.

Teoria Científica

Uma teoria científica baseia-se, principalmente, em dois pontos: um fato natural e um conjunto de hipóteses.

Fato natural

Um fato natural é um evento ou fenômeno que ocorre na natureza que é, necessariamente, verificável. Isto é, deve ser possível observar esse fenômeno de maneira distinta, de forma que ele não seja confundido outros fenômenos parecidos. É importante ter em mente, também, que não necessariamente esse fato é reprodutível, isto é, capaz de ser reproduzido em laboratório. Por exemplo, o fato de que se soltarmos uma bola do alto de um prédio ela cai é um fenômeno observável: sabemos que a bola vai cair se a soltarmos, e é possível reproduzir esse evento quantas vezes e quando necessário. Outro exemplo é o nascer do Sol: é um fenômeno verificável – todo dia o Sol nasce no leste -, mas não é possível reproduzi-lo em laboratório. Por mais que se tente, o Sol não vai nascer no meio da noite. Ainda assim, ambos são fatos naturais.Venn-Teoria

Conjunto de hipóteses

Um conjunto de hipóteses é um conjunto de ideias relacionadas aos fatos naturais e que é capaz de fornecer uma explicação lógica para eles. Essas ideias devem ser, obrigatoriamente, falseáveis, ou seja, deve ser possível testá-las através de algum experimento criado com esse fim.

Para que uma ideia seja falseável é necessário que, a partir dela, seja possível imaginar uma situação que implique que ela esteja incorreta. Por exemplo, a afirmação “uma bola solta do alto de um prédio sempre vai atingir o chão” é falseável, porque pode-se imaginar uma situação em que a bola atinja algum obstáculo durante a queda (um toldo, por exemplo). Ideias não falseáveis não podem ser verificadas porque não existe situação (hipotética ou não) que a contradiga.

Mais que “apenas” uma teoria

Uma teoria científica não deve ser comparada a uma crença, pois é construída através de um conjunto de regras conhecido como Método Científico. Esse método, sobre o qual falaremos mais no futuro, é um conjunto de procedimentos que garante que o conhecimento gerado através dele seja verdadeiro. O fato de ser baseada em fatos naturais verificáveis e em hipóteses que podem ser testadas implica, entre outras coisas, que:

  • – Uma teoria é independente de qualquer opinião. Opiniões de qualquer tipo não têm influência sobre a validade de uma teoria científica. Isto é, ela é válida independentemente da opinião pessoal de qualquer pessoa, porque opiniões não fazem parte da validação das hipóteses que explicam determinada ocorrência;
  • – Crença não constitui teoria, e vice-versa. Por definição, uma crença é uma alegação que é aceita sem a necessidade de comprovação. Em outras palavras, trata-se de alegações não-falseáveis, porque não podem ser verificadas. Da mesma forma, uma teoria científica não constitui uma crença porque é possível testá-la. De fato, tentar provar que uma ideia está errada ou incompleta é parte integrante do funcionamento da ciência.
  • – A falseabilidade de uma teoria não indica que ela seja algo duvidoso. O fato de uma teoria poder ser testada não implica que sua validade seja algo incerto; de fato, uma ideia só se torna uma teoria se sobrevive aos testes a que é submetida. Ou seja, uma teoria é uma ideia que não apenas já foi testada mas que passou nos testes aos quais foi submetida.

Uma teoria é um fato válido, independentemente de se acreditar nela ou não. Um caso famoso é o da Teoria da Evolução; por mais pessoas que digam que não acreditam nela, ela não deixa de ser verdadeira. Acreditando nisso ou não, viemos todos de um ancestral comum ao macaco. Aliás, cabe mencionar aqui que existe um equívoco bastante comum no que se refere a isso. A teoria da evolução não diz que o homem evoluiu a partir do macaco; ela diz que o homem e as diversas espécies de macacos evoluíram a partir de uma mesma espécie, ou seja, têm um ancestral em comum. Esse processo, aliás, se deu de forma lenta e gradual; não houve um ancestral comum que de repente tenha dado à luz um ser humano e a um chimpanzé.

Por último, uma teoria fornece previsões a respeito de fatos ainda não observados ou não explicados, com base nas explicações fornecidas para os fatos que ela incorpora. Dessa forma, é possível que uma teoria construída com base em um conjunto de dados seja capaz de prever novos fatos. Para citar um exemplo recente, o Bóson de Higgs foi previsto a partir do modelo padrão para a física de partículas nos anos 1960. Desde então, procurou-se observar esse fenômenos através de aceleradores de partículas, construídos a partir dos princípios estabelecidos por essa mesma teoria, até que ele finalmente foi observado recentemente, no LHC. Esse é o maior teste pelo qual uma teoria pode passar: o teste de suas previsões. Com base nos princípios que ela fornece, não apenas ela explica os fatos já conhecidos mas prevê fatos ainda desconhecidos, e dessa forma expande o conhecimento humano. Quando as suas previsões são confirmadas, então essas previsões passam a fazer parte da própria teoria, que pode dar origem a outras previsões. Se as previsões estiverem erradas, então procura-se por novos princípios que sejam capazes de incluir não apenas o que já se conhece como também os novos fatos que a teoria não explica. Dessa forma, existe um ciclo pelo qual o conhecimento passa, através do qual teorias são construídas, adaptadas e derrubadas, e cujo saldo é sempre um acréscimo ao conjunto total do conhecimento humano.

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